Coordinadores del número:
Pedro Alves
Professor Auxiliar Convidado
(Escola das Artes - Universidade Católica Portuguesa)
pmalves@porto.ucp.pt
https://orcid.org/0000-0003-3774-2019
Portugal
Daniela Melaré Barros
Professora Auxiliar
(Universidade Aberta)
daniela.barros@uab.pt
http://orcid.org/0000-0002-1412-2231
Portugal
Maria do Céu Marques
Professora Auxiliar
(Universidade Aberta)
maria.marques@uab.pt
http://orcid.org/0000-0001-8032-4360
Portugal
Resumo
O cinema autoriza múltiplas formas de representar e interpretar a realidade. Além de permitir a fruição estética, significa também uma oportunidade para pensarmos e refletirmos sobre o real. Sob o ponto de vista educativo, assume-se como fonte relevante para desenvolver capacidades críticas, estéticas e criativas, além de contribuir para a aquisição de conhecimentos e competências curriculares e vitais. Sob um prisma social, contribui para a discussão de perspetivas, ideais e comportamentos, alimentando a pertença ou a diferenciação entre indivíduos, grupos e comunidades. Assim, o cinema mostra-se como um ator e agente incontornável nas negociações entre o homem e o seu mundo, permitindo diálogos, expressões e experimentações da realidade que alimentam o progresso, a mudança e a reflexão sobre quem somos, de onde vimos e para onde vamos.
Palavras chave: Cinema; Educação; Sociedade; Realidade; Representação; Expressão; Receção
Resumen
El cine autoriza múltiples formas de representar e interpretar la realidad. Además de permitir la fruición estética, significa también una oportunidad para pensar y reflexionar sobre lo real. Desde el punto de vista educativo, se asume como fuente relevante para desarrollar capacidades críticas, estéticas y creativas, además de contribuir a la adquisición de conocimientos y competencias curriculares y vitales. Bajo un prisma social, contribuye a la discusión de perspectivas, ideales y comportamientos, alimentando la pertenencia o la diferenciación entre individuos, grupos y comunidades. Así, el cine se muestra como un actor y agente ineludible en las negociaciones entre el hombre y su mundo, permitiendo diálogos, expresiones y experimentaciones de la realidad que alimentan el progreso, el cambio y la reflexión sobre quién somos, de dónde venimos y para donde vamos.
Palabras clave: Cine; Educación; Sociedad; Realidad; Representación; Expresión; Recepción
Abstract
Cinema authorizes multiple ways of representing and interpreting reality. Besides allowing aesthetic fruition, it also means an opportunity to think and reflect on the real world. From an educational point of view, it is a relevant source for developing critical, aesthetic and creative skills, as well as contributing to the acquisition of curricular and vital knowledge and capacities. From a social perspective, it contributes to the discussion of perspectives, ideals and behaviours, fostering the belonging or differentiation between individuals, groups and communities. Thus, cinema becomes an essential actor and agent in the negotiations between human beings and their world, allowing dialogues, expressions and experiments of reality that nurture progress, change and reflection on who we are, where we came from and where we are going.
Key Words: Cinema; Education; Society; Reality; Representation; Expression; Reception
Apresentação
Apesar de ter “apenas” cerca de 125 anos de existência, o cinema demonstrou, ao longo do século XX e no que levamos de século XXI, ser um meio tremendamente importante para a representação da realidade e para os modos pelos quais a vemos e compreendemos. Desde sempre tivemos a necessidade de, experimentando a realidade, encontrarmos formas de a comunicarmos ao Outro, de a expressarmos na sua complexidade e infinitude cognitiva, afetiva e empírica. Por outro lado, não cessamos de procurar representações do real que nos permitam definir não apenas o mundo que nos envolve, mas também nós mesmos, enquanto atores e agentes desse mesmo ambiente. Marie-José Mondzain refere que “fazer uma imagem é pôr o homem no mundo como espectador” (2015: 50), pelo que o cinema pode e deve ser entendido como um gesto de procura de compreender o mundo a partir da produção e da receção de imagens em movimento.
A expressão cinematográfica envolve uma intenção de dizer algo sobre a realidade, aproveitando direta ou indiretamente os seus componentes para construir relatos significativos. E estes relatos oferecem-se a um conjunto alargado de espectadores que dialoga com eles em níveis individuais e coletivos. Como afirma Turner, o cinema aparece-nos em primeiro lugar como comunicação, mas alimenta também “um sistema maior gerador de significados”, que é a própria cultura (1997: 51). Assim, o cinema assume uma necessária implicação social com os autores, contextos e recetores que (re)configuram os seus significados. Significados, esses, propostos e abertos à polissemia, mais do que definidos e fechados nas suas possibilidades de significação.
Perante esta natural e fecunda implicação do cinema nas vidas individuais e coletivas dos seres humanos, compreende-se o seu posicionamento e a sua utilização frequente em âmbitos educativos (formais e não-formais). O processo educativo dos jovens vê-se, demasiadas vezes, fechado a propostas que vão além dos modelos ultrapassados, dos currículos sobrelotados e dos recursos limitados com que muitas escolas hoje se deparam. No entanto, várias escolas procuram abrir-se a novas tecnologias, a novas estratégias e a novos modelos de ensino, muitos deles propiciadores de um contacto próximo com a criação e a experimentação artísticas. O cinema não é exceção e a exploração pedagógica do cinema é, até, recomendada, visto que a sua inclusão nos programas curriculares e extracurriculares permitem um acesso mais democrático à arte e a expansão de horizontes culturais, conduzindo a melhores níveis de capacidade crítica e estética (Aidelmann e Colell, 2018).
Uma análise capaz e abrangente das relações entre cinema, sociedade e educação deve, necessariamente, começar por refletir sobre o meio de comunicação a nível da sua ontologia, das suas capacidades e das suas problemáticas. Enquanto forma de (re)configuração e representação do real, o cinema autoriza modos distintos de aproximação a diferentes temas, contextos e sujeitos, ora aproveitando os materiais oferecidos pelo real, ora imaginando para lá dos limites do mesmo. A definição ou o questionamento das fronteiras e das relações entre realidade e ficção são absolutamente cruciais para entendermos as várias “verdades” propostas - ou questionadas - pelo cinema. O texto “La ficción en la película de no ficción” de Carlos Ruiz Carmona é, por isso, um relevante contributo inicial para entendermos a complexidade das relações entre ficção e documentário (ou não-ficção) nos modos de representar a realidade através da narrativa cinematográfica. Estabelece um percurso de reflexão sobre diferentes variáveis a considerar no diálogo entre ficção e não-ficção, referenciando alguns dos teóricos, cineastas e filmes mais importantes para pensar as principais questões e conclusões em torno das fronteiras, proximidades e distâncias entre cinema e realidade.
A reflexão sobre os modos de representação da realidade pelo cinema encaminha-nos igualmente para estudos de caso onde esta se desenvolve de formas heterogéneas, quer na sua configuração, quer na sua intencionalidade. Em “De la redacción a la (gran) pantalla: roles profesionales del periodismo y su representación em la ficción audiovisual”, os seus autores - Maria Fernanda Novoa Jaso, José Javier Sánchez-Aranda e Javier Serrano-Puche – exploram um papel social específico (jornalista) para averiguar a qualidade e quantidade da referenciação desta profissão nas representações na ficção audiovisual. Com base num levantamento histórico de conteúdos cinematográficos e televisivos e numa indagação cuidada das tipologias que moldam a referida profissão, estabelece-se uma interessante análise que cruza a perceção real com a representação audiovisual do cargo, demonstrando, assim, a capacidade do cinema em contribuir para o desenho da consciência e do imaginário sociais.
Por outro lado, a representação da realidade pode igualmente proporcionar uma reconfiguração e renovação significativas da perceção e consciência históricas. Uma abordagem do passado a partir de contextos, imaginários e empirismos presentes atualizam a experiência e a compreensão (cognitivas e afetivas) de eventos e figuras antigos. Um caso paradigmático é explorado por Elsa Maria Carneiro Mendes no texto “Narrativas Audiovisuales sobre la Antigüedad clássica: la representación del Emperador Augusto en el cine y en la televisión”. Partindo de uma figura histórica emblemática e de um levantamento de obras cinematográficas e televisivas onde o imperador Augusto e a sua época aparecem representados, a autora comprova a importância do cinema para a preservação cultural do passado a partir de diferentes estratégias e formatos de renovação, atualização e representação da realidade histórica. O cinema confirma-se, assim, como instrumento capaz de refletir sobre o real a partir das suas representações, direcionado não apenas para contextos atuais, mas também para aqueles que moldam o nosso passado.
A construção de relatos cinematográficos estimula, assim, uma compreensão significativa sobre diferentes aspetos e campos da realidade. Envolve diferentes quadrantes individuais e coletivos da nossa experiência vital, permitindo também diferentes formas de diálogo com o real. Além de poder abordar de forma direta os materiais encontrados ou imaginados na realidade, permite também dialogar com outras formas de arte e adaptar obras procedentes de outros campos de expressão artística. A transmedialidade proporcionada pelo cinema coloca-o em relação direta com artes como a pintura, a fotografia ou o teatro. No entanto, e pelo seu caráter narrativo intrínseco, a literatura surge como campo histórica e ontologicamente rico para inspirar relatos fílmicos que acarretam representações significativas sobre o nosso mundo. Isto mesmo aborda e demonstra o texto de Luís Gonçalves, “Variações e recriações cinematográficas de Madame Bovary”. A partir do romance de Gustave Flaubert, o autor explora diferentes combinações e diálogos entre literatura e cinema, evidenciando a possibilidade de explorar cinematograficamente a realidade com base noutras formas de representação artística da mesma.
Um dos aspetos cruciais que tem permitido ao cinema impor-se como modo significativo de representação da realidade e meio privilegiado para a comunicação entre diferentes pessoas, culturas e comunidades tem sido uma progressiva evolução tecnológica nos modos de produção e receção fílmicas. Ao longo da História do Cinema, foram vários os momentos, movimentos e contextos que introduziram ou utilizaram a tecnologia como modo de repensar as relações entre cineastas e a realidade, expressando-a sob formas mais inovadoras e desafiantes. Por outro lado, a própria experiência de cinema foi-se renovando também mediante as mudanças tecnológicas, oferecendo hoje possibilidades de uma vivência fílmica muito distinta daquela dos primórdios do cinema. O texto de Jaime Neves – “A evolução tecnológica na democratização dos meios de produção e nas formas de ver cinema” – dá conta precisamente destas mudanças e desta evolução na tecnologia utilizada para fazer e ver cinema. Explora alguns dos principais eventos e intervenientes nas alterações de paradigmas da expressão e receção fílmicas, desenhando um panorama importante para compreendermos o que significa hoje o cinema para nós, enquanto indivíduos e sociedade.
Esta importância contemporânea do cinema posiciona-se, como vimos, num diálogo necessário entre produção e receção. A relevância fílmica para pensarmos, refletirmos e expressarmos a realidade surge da possibilidade oferecida pelo cinema para questionarmos, confirmarmos e renovarmos as roupagens da compreensão do nosso mundo a partir das ficções e das não-ficções que a colocam ao serviço da experimentação crítica. E se a tecnologia originou novas formas de representar e expressar narrativas, permitiu igualmente desenvolver novos modos de utilizar o cinema em processos de receção significativos, quer sociais quer educativos. Assim, o cinema permite o desenvolvimento de modelos pedagógicos que contribuem ativamente para novas e melhores formas de desenvolvimento individual e coletivo, fomentando uma participação social mais ativa e um mais capaz processo de aprendizagem vital.
É neste ponto de confluência social e educativa entre o potencial de representação significativa da realidade e os modos impactantes da sua experimentação pelo cinema que os últimos três artigos deste monográfico se posicionam. Em “Potencialidades do cinema de ficção científica em contexto de reclusão e o seu impacto na construção de comunidades de aprendizagem”, José António Moreira e Elsa Rodrigues abordam e detalham o papel do cinema como elemento determinante de um modelo pedagógico que incorpora a ficção científica como campo para trabalhar um conjunto de competências de aprendizagem junto de uma comunidade de reclusos a frequentar o ensino superior. Este modelo utiliza o cinema como instrumento para desenvolver diferentes competências nos seus alunos, que vão do pensamento crítico ao desenvolvimento da literacia cultural e artística. Por outro lado, renova os papéis de professores e alunos dentro de ambientes de aprendizagem mais democráticos e abertos, relevando assim a polissemia inerente à experiência fílmica.
Por outro lado, o texto de Andrea Castro-Martínez e Pablo Díaz-Morilla – “El proceso de enseñanza-aprendizaje de la Historia del Cine a través de una estrategia de storytelling y storydoing teatral aplicada al ámbito universitario” – demonstra que esta exploração pedagógica do cinema não tem necessariamente de restringir-se apenas a estratégias de análise fílmica, mas pode também trilhar caminhos de experimentação prática em áreas próximas ao cinema (neste caso, narrativa e teatro). Com base num projeto empírico que recorre a estratégias de configuração narrativa e representação teatral por parte dos alunos, os autores identificam um claro contributo do storytelling e do storydoing para uma aprendizagem dinâmica da história e da linguagem do cinema. Além de promoverem grande motivação nos estudantes, ambos estimulam competências que se relacionam não apenas com conteúdos e matérias curriculares, mas também com aspetos fundamentais da vida individual e coletiva dos alunos fora do ambiente universitário.
Finalmente, um último projeto apresentado por Raquel Pacheco reforça esta ideia de relevância social e educativa do cinema a partir das possibilidades oferecidas pela sua produção e receção. O texto “DocNomads, Ao-Norte e ESE: um projeto de literacia cinematográfica implementado em Viana do Castelo” aborda e detalha uma metodologia que combina a análise com a criação cinematográficas, passíveis na sua relação e complementaridade de contribuir para uma mais premente literacia fílmica. Por outro lado, implica a literatura num diálogo próximo com o cinema, contribuindo para a identificação de semelhanças e diferenças interartísticas que participam também no desenvolvimento da consciência sobre a expressão cinematográfica. O cinema confirma-se, assim, como campo para os jovens trabalharem o seu conhecimento e a sua perspetiva sobre a realidade, alicerçados nas possibilidades de análise crítica e expressão significativa do real a partir da subjetividade autoral proporcionada pelos códigos de expressão fílmica.
Os vários artigos deste monográfico contribuem, nos sentidos previamente expostos, para desenhar um panorama abrangente e, acima de tudo, complementar, sobre o caminho que vai da configuração da realidade pelo cinema (expressão) à compreensão e interpretação da mesma a partir do cinema (receção). Oferece perspetivas que demonstram a importância social e educativa da sétima arte, a partir de abordagens que ora refletem sobre a sua ontologia e evolução, ora detalham estudos de caso que as permite contextualizar e problematizar. Assim, os vários autores exploram um conjunto de questões e reflexões que permitem pensar e definir o (re)posicionamento contemporâneo do cinema, não apenas enquanto forma artística e cultural de expressão, mas também no âmbito de diferentes estratégias, programas e contextos pedagógicos e sociais que o relevam como campo fundamental para a definição do ser humano e dos seus universos.
Referências bibliográficas
Aidelman, N. y Colell, L. (2018). Transmitting cinema: Some proposals for our time. Film Education Journal, 1(2): 147-162. DOI: https://doi.org/10.18546/FEJ.01.2.04
Mondzain, M. J. (2015). Homo spectator: ver, fazer ver. Lisboa: Orfeu Negro (texto original de 2007).
Turner, G. (1997). Cinema como prática social. São Paulo: Summus Editorial (texto original de 1983).